quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

EDUCAR SOB CONDIÇÕES

Talvez o mal maior que nos persegue seja o fantasma do absoluto.
Há uns séculos, esta frase - que deveria conter um vocábulo começado por maiúscula -daria acesso directo a uma inquisição, forma misericordiosa (embora dolorosa, mas o que dói sara...) de purificação das almas; hoje, qualquer hereje a pode pronunciar sem temores maiores. Graças a Deus.
O absoluto, hoje, é muito relativo. Refere-se, neste caso, à tentação de todos os "escreventes" (como eu; não anseio a muito mais do que ao prazer de me rever em texto...) em se verem publicados, lidos e comentados pelos cibernautas. Estes, abaixo ainda na escala da personalização, desdobram-se em manobras absolutizantes, quer seja através da colagem do panegírico, ou do "rasganço" típico dos iconoclastas.
Ora, esta pulsão absolutizante tem como consequência fatal a relativização daquelas coisas que, há uns tempos, se apresentavam, de modo mais ou menos pacífico, como absolutas. Entre essas "coisas" cabem os valores, a educação, a ordem, a hierarquia... Somos todos treinadores de bancada, sendo que o que nos parece distinguir (e nem sequer aos olhos de todos...) é apenas uma questão de convenção; de educação, se quisermos ousar um pouco mais.
Querem uma questão fracturante? Pois aí a têm: avaliação de professores.
Ousemos, então, entrar no dogma: o que deve, e porque deve, ser discutido? Uma simples forma de hierarquia; uma simples medida "economicista" (detesto este termo, enquanto referente de uma certa mentalidade que julga que as coisas não têm preço, que deve haver sempre dinheiro para as coisas importantes, para "as suas" coisas importantes, que é mesquinha a mentalidade que faz contas, que, julgando os valores materiais desprezíveis, estão sempre dispostos a uma greve por +0,75% de aumento da "massa salarial"...)
É estúpido não perceber que os valores (pedagógicos, estéticos ou outros) estão inseridos num mundo pejado de materialidade. É estúpido não perceber que, se há uma certa margem de pessoas que não se emociona com +0,75% de aumento na massa salarial, é muito pequena ("desprezável", como nas experiências físicas e químicas, para fins estatísticos...) a percentagem de pessoas que não se importa mesmo com o seu bem-estar económico. E, atenção que, aqui, é mesmo pertinente a distinção entre "bem-estar económico" e "rendimento económico". Conheço alguns, e são louváveis por isso, que, tendo o suficiente, vivem simplesmente, sem alardes ou exibicionismos. Conheço menos (só me estou a lembrar de Frei Lino...) quem, podendo viver de acordo com o seu próprio merecimento, preferem o anonimato de um modo de vida cenobita ou parecido.
Acerca da avaliação dos professores, vivemos grandes equívocos:
1º - compatibilização entre a moralidade de quem obriga a sacrifícios (e denota algum deboche na gestão dos fundos públicos) e a validade da ideia / "modelo" de avaliação;
2º - confusão entre "condições de vida normais", aceitavelmente dignas, e necessidade de diferenciação pelo mérito;
3º - indistinção entre modelos que, não prescrevendo, têm a diferenciação como norma e aqueles que se comprazem na pura prescrição, sem se importarem com a realidade.
Em relação ao 1º ponto: Há mais do que razões para falar num gordo regime de transumância e comparar Portugal a um pasto razoável para pastores de duas quintas que se fundiram numa só. Não há escritura pública - o que adensa ainda mais as perspectivas de fraude - mas tudo leva a crer que há este pacto: "Ambos temos os nossos rebanhos. É razoável que haja épocas em que as nossas ovelhas (e, sobretudo as cabras e os cabritos) estejam mais anafadas do que as vossas - será inútil dizer que aceitamos a reciprocidade. De qualquer modo, para a nossa única e exclusiva conveniência, será melhor que definamos um território alargado que funcione de acordo com as estações do poder. Contudo, para enganar os pastores menores dos outros pequenos rebanhos, que têm a mania de continuar a tirar fotografias a preto e branco, vamos escolher "Os Eleitos". Estes escaparão sempre às desagradáveis mutações de humor do povão que nos confia as ovelhas. Chamar-lhes-emos Mexias, Ângelos-Correias, Constâncios, Talones ou (não sei se estes devem ficar no acordo, mas, pronto, corremos o risco) Cardonas, Varas... E, como neste vasto território cabem mais aves raras, toleraremos também alegres e santanas-de-menezes, até para nos diferenciarmos daqueles que não aguentam joões-amarais, sás-fernandes e outros que tais. Deste modo, daremos um ar de modernidade. E, se um dia nos apearem do poder - o que não se vislumbra como possível antes da próxima revolução, porque o povo é sereno - irão encontrar um território ingerível, depradado, quase desertificado. Talvez então alguém diga que, grande, era El-Rei D. Filipe II de Espanha, que Deus haja..."
Contudo, o facto de sabermos que este acordo -sem escritura, com escritura, mais ou menos letra ou trejeito -existe não nos deve tirar a lucidez para descobrir que possa haver algum descuido nessa lógica. Parece-me que é isso que está a acontecer. Sempre, os mais sérios (e há-os aos montes!) se queixaram da maldição de serem assim: a eles lhes cabiam, sempre e sem qualquer retribuição, a não ser a muito portuguesa "vitória moral", as tarefas de maior melindre, de maior responsabildade. Durante décadas, sempre ouvimos este lamento: "Para quê?" E com razão. Com toda a razão. O melhor que um professor tinha a fazer quando chegasse a uma escola era fazer-se de inexperiente, ("distraído" dava mais charme e, porventura, alguma indevida retribuição), sem jeito para "a papelada": haveria sempre uma pessoa que, por deontologia, achava que as coisas deveriam ser feitas. E, assim, fazia (as). No fim, o mesmo: menos dias de trabalho = mais dias de férias; mais erros = menos tarefas de responsabilidade; mais tempo de irresponsabilidade = mais ordenado e, não sendo tonta a natureza humana, também os mais habilitados se começaram a desinteressar pelos cargos; preferiam dar aulas. E isso, em alguns casos, acabou por lhes ser fatal, impedindo-os de aceder à categoria de "Professor Titular". (Esta categoria não sei se nasceu na transumância, mas foi completamente assassinada pela sua implantação. Então não é que se quis instituir em guardião de um sistema - que se queria, e bem, substituir - os expoentes desse mesmo sistema? Deus, neste momento, estava francamente a olhar para o lado.
Nada, porém, do que de fica dito, belisca a racionalidade do que quer instituir. A avaliação, seja em que sistema seja, é um factor de racionalidade. E, para que seja avaliação, tem de comportar, necessariamente, algumas coisas desagradáveis e antipáticas: 1. tem de se reduzir a uma escala; 2. Tem de ter consequências práticas (para cima ou para baixo, isso é outra questão); de outro modo, seria mais do mesmo nada: confio muito em ti, por isso vais fazer mais, mas não te posso dar mais nada, porque isto aqui é uma coisa pública (não se pode dizer "empresa"...)
E, antes de comparar sistemas que podem ser incomparáveis (é outra inconsistência que eu não percebo: como se é tão lesto a convocar, e bem, modelos externos para denegrir determinado tipo de construção escolar nórdica e se convoca, em sentido contrário, o modelo finlandês: esquecem-se que em Portugal, ainda mais do que para os suportes de skis, não funcionam os modelos de mentalidade finlandeses. Ou suecos. Ou...)
Todos (?) sabemos que uma avaliação deve ser por objectivos e que estes devem ser medidos. Mas como os fazer numa escola pública, em que amostra, o universo mesmo, é tão variável, em que não há uma selecção inicial de professores, em função de um projecto, mas sim em função de critérios generalistas que todos já vimos poderem ser completamente falíveis?
Esqueçamos a transumância, por um momento e analisemos o modelo: Qual é a sua essência? O que pode, e deve, ser mantido e o que pode, e deve, ser expurgado? Não insistam, em nome de alguma dignidade intelectual, num modelo que já provou à saciedade e à sociedade, que não avalia coisa nenhuma. Forcem o sistema a valorizar a profissão docente, mas não o obriguem a ser insensivel.
Por uma questão de falta de método, as duas outras questões já foram engolidas no tratamento da primeira questão. (É claro que, se estivesse mesmo a ser avaliado, refaria a economia argumentativa toda, repartindo argumentos, quesitos, proposições etc.)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

É difícil pensar diferente nestes tempos moldados pelo paradigma do pensamento único. Sempre o foi, aliás. Não viram os juízes "corrupção da juventude" no comportamento de Sócrates? (E, se calhar, até havia, só que um outro pensamento único, subsequente à dramatização platónica deste incidente, impôs quase como sacrilégio pensar o contrário...) Viram as eminentíssimas autoridades que condenaram Galileu aquilo que uns velhos olhos descobriram - ainda que com a ajuda de uma "diabólica" luneta?
De que lado está a razão neste dramatizado dossiê da avaliação dos professores? Fazemos bem em recusar um modelo -que, embora tendo nascido torto, deu mostras de alguma vontade em se endireitar?
Será que queremos mesmo ser avaliados? (Não seria nenhuma enormidade admitir que não, mas esse é outro tipo de pensamento único: parece não estar ao alcance de ninguém admitir o que escondidamente se pretende. Sem pecado, repita-se).
É mentalmente sadio continuar a defender, por um lado, a superioridade intelectual de um "casta" espuriamente constituída como competente para avaliar: a casta dos "titulares"? É mentalmente sadio continuar a assobiar, ameaçando mesmo com processos por difamação contra o governo por este defender o óbvio: que, antes deste modelo, pura e simplesmente, não havia avaliação, como defenderam uns mui avaliados professores de Viseu?
Faz sentido que um dos pedagogos de todos os regimes - Daniel Sampaio - só saiba dizer o que está de acordo com o pensamento dominante, mantendo, no entanto, uma "diferenciazinha" que sempre o pode ilibar? No entanto, em termos substantivos, quase nada...
Faz sentido uma prática que solicita uma coisa e que, uma vez resolvida essa pretensão emigra para outra, depois para outra, e outra...?
Se os tempos não fossem trágicos, tudo isto poderia fazer sentido, embora seja exactamente a existência de limites que confere sentido às coisas. Assim sendo, talvez fosse de pensar no que, eventualmente, teremos a perder com a rejeição deste modelo, aliás, com a rejeição de todos os modelos e o acantonamento em posições de extrema defesa.
Se estivéssemos sós no contexto da educação, talvez tudo isto fizesse pleno sentido. Acontece que, para o bem e/ou para o mal, estamos acompanhados, vigiados, sob suspeita.
Há muitos anos já, chamei a atenção para o facto de, talvez, não se dever justificar uma falta a um teste sumativo, previamente marcado, através do artigo 102º: ia caindo o carmo e a trindade... Muito antes de serem tidos como dogmas pedagógicos incontornáveis, defendi que houvesse critérios de avaliação, que os professores dessem aos seus alunos todas as indicações possíveis para que estes pudessem, não só fazer a sua auto-avaliação, mas também aprender com os seus erros, ou seja, para que a avaliação, mesmo a sumativa, pudesse ter um feed-back formativo: descobriram-se aí ameaças à autoridade do professor, formas de os alunos e encarregados de educação pedirem contas ao professor... Antes da regulamentação da componente não lectiva, parecia-me razoável que as horas de redução pudessem serutilizadas para a realizaçaõ de outras tarefas não-lectivas: foi preciso esperar que, face ao exagero vigente, surgisse um exagero normativo, complemantado por muitos exageros práticos. Muito antes desta crise nas aposentações, defendi, após uma visita de estudo a Mérida, e consequentes trocas de impressões com colegas espanhóis, que deveria haver um ajustamento nas pensões, de modo que um activo não corresse para a aposentação porque, inclusivamente, ganhava mais!! Não era óbvio que se tratava de uma enormidade? Era, mas ao tempo, ninguém se demoveu (também é verdade que a República, ao conferir aos seus "filhos mais chegados" - ou seja, ministros, deputados, administradores de EPs e similares - reformas douradas, não ajuda nada à moralização do sistema. Mas isso não altera em nada a insustentabilidade e a iniquidade da recompensa majorante da inactividade...)
Tudo isto se passou, e se passa, contudo, sob a mira de legitimados interesses privados. De um modo mais ou menos público, já se vai admitindo que as áreas incontornavelmente públicas são as da defesa e da justiça; nem a Educação nem a Saúde têm esse estatuto.
As escolas públicas - e é bom que se diga, porque muitas vezes se omite - são lugares de excelentes práticas, de excelentes profissionais. São, sem a existência de um sistema de avaliação credível, lugares de heroísmo, de missionarismo - que são os nomes que se devem dar a desempenhos abnegados, no limite do possível e da dedicação sustentada, sem qualquer reembolso. Os índices actuais de assiduidade são incríveis para uma profissão que é cronometrada ao segundo, que trabalha muito para além daquilo que se vê, sem que disso possa apresentar prosas que convençam a opinião pública. Nas escolas públicas há pessoas que vão trabalhar ao sábado para viabilizar uma pequena melhoria do funcionamento da escola, professores que pagam viagens de estudo ao estrangeiro para poderem dar aos seus alunos uma oportunidade de enriquecimento... em tempo de "férias"... Mas as escolas públicas também são lugares em que, à conta de um benemérito espírito de classe, há gente que não merece a companhia dos que acabo de referir. Pessoas que acham sempre que estão na pior escola do mundo, que têm os piores alunos da terra, que têm as piores condições de trabalho. Estatisticamente são poucos - ao contrário do que pensam os "profanos", mas fazem muito barulho.
Avaliar parece-me, pois, para além das racionalizações do sistema, para além dos efeitos económicos (ou "economicistas", conforme o gosto), um imperativo ético. E, à maneira kantiana, categórico, ou seja, incondicionado.
Para começar, contudo, não queria comprometer-me com nenhuma posição, a não ser com esta: se aceitamos (e eu aceito) que temos de ser avaliados (não apenas por razões estrínsecas, legais...), mas por um imperativo moral, não seria de bom tom recusar um acontonamento puro e simples em posições cristalizadas?
Se for possível tornar pensável a discussão da proposta de avaliação - a única que neste momento existe - terei logrado o meu intento: abrir uma brecha no pensamento único, no dogma actualmente em uso.