É difícil pensar diferente nestes tempos moldados pelo paradigma do pensamento único. Sempre o foi, aliás. Não viram os juízes "corrupção da juventude" no comportamento de Sócrates? (E, se calhar, até havia, só que um outro pensamento único, subsequente à dramatização platónica deste incidente, impôs quase como sacrilégio pensar o contrário...) Viram as eminentíssimas autoridades que condenaram Galileu aquilo que uns velhos olhos descobriram - ainda que com a ajuda de uma "diabólica" luneta?
De que lado está a razão neste dramatizado dossiê da avaliação dos professores? Fazemos bem em recusar um modelo -que, embora tendo nascido torto, deu mostras de alguma vontade em se endireitar?
Será que queremos mesmo ser avaliados? (Não seria nenhuma enormidade admitir que não, mas esse é outro tipo de pensamento único: parece não estar ao alcance de ninguém admitir o que escondidamente se pretende. Sem pecado, repita-se).
É mentalmente sadio continuar a defender, por um lado, a superioridade intelectual de um "casta" espuriamente constituída como competente para avaliar: a casta dos "titulares"? É mentalmente sadio continuar a assobiar, ameaçando mesmo com processos por difamação contra o governo por este defender o óbvio: que, antes deste modelo, pura e simplesmente, não havia avaliação, como defenderam uns mui avaliados professores de Viseu?
Faz sentido que um dos pedagogos de todos os regimes - Daniel Sampaio - só saiba dizer o que está de acordo com o pensamento dominante, mantendo, no entanto, uma "diferenciazinha" que sempre o pode ilibar? No entanto, em termos substantivos, quase nada...
Faz sentido uma prática que solicita uma coisa e que, uma vez resolvida essa pretensão emigra para outra, depois para outra, e outra...?
Se os tempos não fossem trágicos, tudo isto poderia fazer sentido, embora seja exactamente a existência de limites que confere sentido às coisas. Assim sendo, talvez fosse de pensar no que, eventualmente, teremos a perder com a rejeição deste modelo, aliás, com a rejeição de todos os modelos e o acantonamento em posições de extrema defesa.
Se estivéssemos sós no contexto da educação, talvez tudo isto fizesse pleno sentido. Acontece que, para o bem e/ou para o mal, estamos acompanhados, vigiados, sob suspeita.
Há muitos anos já, chamei a atenção para o facto de, talvez, não se dever justificar uma falta a um teste sumativo, previamente marcado, através do artigo 102º: ia caindo o carmo e a trindade... Muito antes de serem tidos como dogmas pedagógicos incontornáveis, defendi que houvesse critérios de avaliação, que os professores dessem aos seus alunos todas as indicações possíveis para que estes pudessem, não só fazer a sua auto-avaliação, mas também aprender com os seus erros, ou seja, para que a avaliação, mesmo a sumativa, pudesse ter um feed-back formativo: descobriram-se aí ameaças à autoridade do professor, formas de os alunos e encarregados de educação pedirem contas ao professor... Antes da regulamentação da componente não lectiva, parecia-me razoável que as horas de redução pudessem serutilizadas para a realizaçaõ de outras tarefas não-lectivas: foi preciso esperar que, face ao exagero vigente, surgisse um exagero normativo, complemantado por muitos exageros práticos. Muito antes desta crise nas aposentações, defendi, após uma visita de estudo a Mérida, e consequentes trocas de impressões com colegas espanhóis, que deveria haver um ajustamento nas pensões, de modo que um activo não corresse para a aposentação porque, inclusivamente, ganhava mais!! Não era óbvio que se tratava de uma enormidade? Era, mas ao tempo, ninguém se demoveu (também é verdade que a República, ao conferir aos seus "filhos mais chegados" - ou seja, ministros, deputados, administradores de EPs e similares - reformas douradas, não ajuda nada à moralização do sistema. Mas isso não altera em nada a insustentabilidade e a iniquidade da recompensa majorante da inactividade...)
Tudo isto se passou, e se passa, contudo, sob a mira de legitimados interesses privados. De um modo mais ou menos público, já se vai admitindo que as áreas incontornavelmente públicas são as da defesa e da justiça; nem a Educação nem a Saúde têm esse estatuto.
As escolas públicas - e é bom que se diga, porque muitas vezes se omite - são lugares de excelentes práticas, de excelentes profissionais. São, sem a existência de um sistema de avaliação credível, lugares de heroísmo, de missionarismo - que são os nomes que se devem dar a desempenhos abnegados, no limite do possível e da dedicação sustentada, sem qualquer reembolso. Os índices actuais de assiduidade são incríveis para uma profissão que é cronometrada ao segundo, que trabalha muito para além daquilo que se vê, sem que disso possa apresentar prosas que convençam a opinião pública. Nas escolas públicas há pessoas que vão trabalhar ao sábado para viabilizar uma pequena melhoria do funcionamento da escola, professores que pagam viagens de estudo ao estrangeiro para poderem dar aos seus alunos uma oportunidade de enriquecimento... em tempo de "férias"... Mas as escolas públicas também são lugares em que, à conta de um benemérito espírito de classe, há gente que não merece a companhia dos que acabo de referir. Pessoas que acham sempre que estão na pior escola do mundo, que têm os piores alunos da terra, que têm as piores condições de trabalho. Estatisticamente são poucos - ao contrário do que pensam os "profanos", mas fazem muito barulho.
Avaliar parece-me, pois, para além das racionalizações do sistema, para além dos efeitos económicos (ou "economicistas", conforme o gosto), um imperativo ético. E, à maneira kantiana, categórico, ou seja, incondicionado.
Para começar, contudo, não queria comprometer-me com nenhuma posição, a não ser com esta: se aceitamos (e eu aceito) que temos de ser avaliados (não apenas por razões estrínsecas, legais...), mas por um imperativo moral, não seria de bom tom recusar um acontonamento puro e simples em posições cristalizadas?
Se for possível tornar pensável a discussão da proposta de avaliação - a única que neste momento existe - terei logrado o meu intento: abrir uma brecha no pensamento único, no dogma actualmente em uso.
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